A imagem que fundou o mito. Publicada em um fórum do 4chan que pedia fotos perturbadoras, “que apenas parecem erradas”, recebeu de um usuário anônimo a descrição que batizou o lugar: saia da realidade nas áreas erradas e você acaba nas Backrooms. Autor da foto desconhecido.
O filme de Kane Parsons, Backrooms: Um Não-Lugar, acompanha Mary e Clark em suas experiências dentro de uma realidade atravessada por memórias, traumas e diferentes formas de se encaixar nas suas próprias vidas. Embora submetidos ao mesmo espaço, cada personagem estabelece uma relação particular com as Backrooms. E a partir dessa experiência, o filme abre espaço para pensar o não-lugar de Marc Augé e a percepção espacial de Maurice Merleau-Ponty.
A mesma loja de móveis em Wisconsin, fotografada em 2002. O espaço real por trás da imagem original: salas vazias, carpete contínuo, luz fluorescente. Da foto anônima nasceu um clássico do creepypasta, o gênero de horror curto criado e compartilhado por usuários da internet.
A cenografia final de Backrooms: Um Não-Lugar (2026), de Kane Parsons. O labirinto amarelo reconstruído para o cinema: papel de parede, forro modular e a monotonia como arquitetura. Imagem: A24.
Espaços de transição
“Não-lugar” foi um conceito criado por Marc Augé para abordar espaços de circulação, passagem e anonimato, que não se constituem necessariamente pela identidade, pelas relações ou pela história que carregam. Aeroportos e estações de metrô são exemplos de espaços que atravessamos constantemente, mas que dificilmente reconhecemos como parte da nossa história, pois não nos pertencem emocionalmente. Na arquitetura, podemos perceber o não-lugar justamente nesses ambientes mais impessoais, pensados para o fluxo e para a permanência momentânea, para nos levar ao lugar. Chamamos espaços assim de “espaços de transição”. As Backrooms parecem partir dessa mesma condição de impessoalidade, até entendermos, ao longo da narrativa, que esses espaços são, na verdade, uma réplica deturpada das memórias dos personagens centrais da trama. O que parecia não possuir origem, destino ou história passa a carregar justamente aquilo que deveria faltar a um não-lugar: a percepção de reconhecimento.
Corredor de aeroporto, corredor de hotel, átrio residencial: fotografias do gênero conhecido como liminal spaces, feitas por usuários anônimos e reunidas em fóruns dedicados ao tema. São espaços de transição registrados vazios, sem ninguém: limiares que existem para serem atravessados, nunca habitados. A câmera os encontra no instante em que a função desaparece, e o que sobra é a arquitetura sozinha consigo mesma. Perder-se na natureza é uma coisa; perder-se nos corredores da própria criação é outra, inteiramente diferente. Fotografias: usuários de fóruns de liminal spaces, autores desconhecidos.
Se as Backrooms parecem inicialmente não possuir uma história, por não carregarem nenhum resquício de permanência ou de familiaridade, então por que ainda conseguimos estabelecer algum tipo de relação com elas? A resposta pode estar na percepção. Para Maurice Merleau-Ponty, não percebemos o espaço como algo neutro que simplesmente se apresenta diante de nós. Nossa experiência é construída a partir do corpo, das experiências anteriores, da maneira como nos relacionamos com aquilo que nos cerca e de nossos sonhos; e, se procurássemos, através de “critérios”, distinguir nossas percepções de meros sonhos, deixaríamos escapar o fenômeno do mundo. É por isso que um espaço que conhecemos pode parecer maior, menor, mais alto ou mais estreito quando retornamos a ele depois de algum tempo. Não lembramos necessariamente de suas medidas, mas da forma como vivemos o espaço. A memória não guarda o espaço como uma planta baixa, com métricas, demarcação de vigas, pilares e sistemas prediais; ela guarda uma experiência que vivemos nele. Mesmo fora do empirismo, fala-se das “contribuições da memória”. Repete-se que “perceber é recordar-se”.
Se não lembramos de um espaço exatamente como ele é, mas a partir da experiência que tivemos nele, a própria memória também pode alterar aquilo que pensamos lembrar. Cada vez que retornamos a uma lembrança, não recuperamos necessariamente o acontecimento original, mas uma nova versão dele, atravessada pelo tempo, pelas emoções e por aquilo que ficou. É nesse ponto que a trama de Mary se torna especialmente significativa. As Backrooms parecem acessar uma memória ligada ao seu trauma e reproduzi-la repetidamente, como se cada retorno ao espaço pudesse alterar um pouco mais aquilo que um dia existiu. A lembrança permanece, e sua forma deturpada sobressai a partir da memória de Mary.
Em uma das sequências mais significativas do filme, a sala da infância de Mary aparece repetidamente, mas nunca exatamente da mesma maneira. Primeiro, reconhecemos o ambiente como um espaço doméstico. Depois, alguns móveis desaparecem, outros parecem afundar na própria construção e as referências começam a perder sua estabilidade. A cada repetição, menos daquele espaço permanece, até que as paredes deixam de apresentar suas marcações e aquilo que antes era claramente uma sala já não consegue ser identificado da mesma forma. Ainda assim, Mary parece reconhecer alguma coisa ali, mesmo quando nós já não conseguimos.
A sala da infância de Mary em cinco retornos: a cada vez que a memória volta, menos permanece. Frames de Backrooms: Um Não-Lugar (2026), de Kane Parsons. Imagens: A24.
A deterioração pode ser entendida como a destruição da imagem que produzimos do ambiente. Uma lembrança reconstruída inúmeras vezes pode conservar sua atmosfera enquanto perde seus detalhes. Podemos esquecer a disposição dos móveis, a cor exata de uma parede ou até a dimensão de uma janela, mas ainda guardar alguma sensação daquele lugar. É como quando voltamos a um espaço depois de muitos anos e percebemos que ele era maior, menor ou diferente do que lembrávamos. O que permanece não é necessariamente a forma do espaço, mas a experiência que tivemos dentro dele.
É justamente essa relação entre espaço, memória e experiência que Gaston Bachelard desenvolve em A Poética do Espaço. Para ele, os espaços íntimos não são apenas lugares onde a vida acontece, mas também espaços onde nossas lembranças e imaginação se acumulam. A casa, nesse sentido, ultrapassa sua condição física e passa a existir também dentro de nós e da construção de quem nós somos. Seus quartos, cantos, corredores e objetos deixam de ser apenas elementos da arquitetura e se tornam parte daquilo que lembramos. Por isso, mesmo quando a forma de um espaço desaparece, sua experiência pode continuar existindo. Há vestígios do que foi vivido.
A lembrança sem os detalhes: da sala de Mary restam o carpete, a luz e uma abertura que nunca esteve ali. A atmosfera é o que sobra. Frame de Backrooms: Um Não-Lugar (2026), de Kane Parsons. Imagem: A24.
Se para Mary as Backrooms representam uma memória da qual ela tenta escapar, para Clark elas parecem oferecer justamente o contrário. Ele reconhece naquele espaço uma realidade próxima de seu próprio imaginário, inclusive em suas formas mais grotescas. Aquilo que, para outros personagens ou até para nós mesmos, causa estranhamento parece, para ele, familiar, pela primeira vez em toda sua história. Clark encontra nas deformações das Backrooms uma versão de mundo que se aproxima da maneira como enxerga a própria existência. Quanto mais o espaço abandona os paradigmas do mundo real, mais ele parece se reconhecer nele.
Clark parece encontrar liberdade quando aceita aquilo que tanto rejeita em si. O ambiente lhe deu essa liberdade. Sua violência, seu ressentimento e a capacidade de machucar outras pessoas passam a integrar a forma como ele existe naquele espaço. O “Pirata Clark” materializa esse deslocamento, como uma exteriorização de um lado de sua identidade que antes permanecia enclausurado em si. Em Merleau-Ponty, o ‘Eu’ nunca existe completamente isolado, fechado em si mesmo. Há sempre uma relação entre aquilo que reconhecemos em nós e aquilo que aparece diante do outro. Nas Backrooms, Clark parece levar essa relação ao extremo. Ele encontra no próprio imaginário uma versão de si que não precisa mais ser escondida, corrigida ou recusada.
A loja de Clark: poltronas dispostas como salas sem paredes, cartazes de liquidação, uma casa em exposição permanente. Frame de Backrooms: Um Não-Lugar (2026), de Kane Parsons. Imagem: A24.
Talvez seja justamente por isso que Clark encontre nas Backrooms uma sensação de pertencimento e libertação, muito diferente dos sentimentos de Mary. Ele já vivia cercado por espaços que simulavam uma ideia de casa e de lar, dormindo dentro da própria loja de móveis e habitando ambientes construídos para representar uma vida que não era exatamente a sua. Nas Backrooms, essa artificialidade deixa de ser um problema, pois, em sua percepção, não é artificial. O espaço não precisa corresponder à realidade para ser habitável. Ao contrário, quanto mais distante ele se torna dela, mais próximo parece estar de Clark. O não-lugar, que antes significava ausência de identidade por ser um espaço transitório, passa a oferecer a ele a possibilidade de reverberar uma extensão (aos nossos olhos) tão horrenda de si mesmo.