Palazzo Fortuny, Veneza, durante Artempo (2007), exposição com curadoria de Axel Vervoordt. As paredes ficaram como estavam, camadas de reboco, tijolo e restos de decoração pintada. Sobre o piso veneziano, uma mesa de cavaletes com bancos cúbicos, uma figura de bronze em pé sobre um cubo de ferro, pequenos relevos e telas nas paredes e um armário veneziano pintado.
A compreensão insensível do espaço
A produção contemporânea de interiores tornou a imagem um dos principais critérios de validação do espaço. A busca incessante por referências, e a velocidade com que estilos são assimilados e substituídos favorecem uma concepção do interior como um resultado primordialmente visual, algo que deve atingir sua forma definitiva antes mesmo de ser habitado. O problema dessa lógica está na redução da experiência à superficialidade: quando o espaço é pensado para se completar de um ponto de vista macro, sua relação com aquele que o habita torna-se irrelevante. Axel Vervoordt parece retirar esse véu que condiciona o olhar ao que “é o que é”, abrindo o espaço para outras formas de compreensão. O ambiente passa a ser experimentado pelos outros sentidos do corpo, ampliando aquilo que o espaço pode comunicar para além daquilo que os olhos enxergam. O valor de um espaço, de um móvel ou de uma obra de arte jamais se encerra em sua aparência ou em sua origem. Está também naquilo que carrega, naquilo que provoca e naquilo que passa a significar quando incorporado à vida de alguém.
Sala de uma casa no Algarve, de Bernard De Clerck, com interiores de Axel Vervoordt: tela de 1960 de Kazuo Shiraga sobre o sofá de linho, vaso de grés de Shiro Tsujimura junto à janela, piso de pedra sob vigas de madeira. Fotografia de Laziz Hamani.
O toko-no-ma da sala wabi no castelo de 's-Gravenwezel, residência de Axel Vervoordt nos arredores de Antuérpia. Sobre a plataforma de madeira antiga, pensada como lugar de silêncio, repousa uma Natura em bronze (1959-60) de Lucio Fontana; na parede, um desenho (1990) de Sadaharu Horio, artista do grupo Gutai. Fotografia de K. Geudens, cortesia TEFAF.
O protagonismo da matéria
Para Axel, um bom espaço é o resultado das relações que se estabelecem entre os objetos e, principalmente, do vazio entre eles. Uma obra de arte não termina em sua forma, assim como um móvel não se resume à sua função, nem um edifício à sua estrutura. Cada “algo” carrega uma trajetória anterior à sua presença no ambiente e que continua a se transformar depois dele. A matéria passa a possuir uma dimensão temporal e traz consigo vestígios de uso, energia, transformação e permanência. É a partir dessa compreensão que a matéria adquire uma espécie de vida. Não porque a matéria deixe de ser matéria, mas sim por não estar vinculada apenas à sua função. Uma superfície marcada pelo sol, chuva, vento, registra uma passagem de tempo, e uma peça reparada conserva a evidência de que um dia houve ruptura. O desgaste não é uma interrupção da existência do objeto, mas parte dela. Quando essas coisas entram em uma casa, suas histórias passam a coexistir com a história de quem as escolheu. O espaço torna-se, assim, um campo de encontro entre diferentes tempos.
O salão do primeiro andar do castelo de ‘s-Gravenwezel, residência de Axel Vervoordt perto de Antuérpia. Foi o primeiro cômodo em que ele misturou a terra da própria propriedade à cal das paredes; o forro de vigas do século XVI apareceu quando o teto de gesso foi retirado. Na parede, Fusta i marró foradat (1972), de Antoni Tàpies; atrás do sofá de linho, desenhado por Vervoordt, um galho de rododendro cortado das sebes da entrada. As portas abrem para o parque.
Reconhecer-se na materialidade
Essa dinâmica transforma a própria ideia de acervo e curadoria. Para Vervoordt, colecionar não se reduz ao valor financeiro, mas se fundamenta na afinidade. O ambiente permite ao morador reencontrar partes de sua própria subjetividade, do reconhecimento interior, e da tristeza agridoce nas diferentes formas de percepção do mundo. A casa passa a ser extensão do indivíduo, que se debruça em uma narrativa de constante transformação, construída pelas relações entre matéria, tempo e a experiência.
Caixas de compartimentos pintadas, cada uma numa cor, [com fragmentos reunidos por Axel Vervoordt ao longo de décadas]: faiança azul, alabastro, contas de coral e cornalina, marfim, prata, ágata. Cada nicho recebe poucos objetos, postos lado a lado sem hierarquia, como numa Wunderkammer em pequena escala.
É possível compreender, então, a coleção como uma forma de autobiografia palpável. O que permanece ao redor do indivíduo encontrou significado suficiente para se fazer presente. Uma peça pode não possuir qualquer relação aparente com a história de seu proprietário e, ainda assim, estabelecer uma conexão profunda com ele. Existe algo entre o indivíduo e o objeto que não depende de explicação racional, e é neste ponto que nós nos reconhecemos. E é nesse espaço de reconhecimento que a curadoria deixa de ser um mero arranjo visual e passa a participar da construção da própria identidade do lugar, como se fosse destinado a sempre ser assim.
Natureza-morta diante de uma janela aberta para o parque: cabeça de Buda em pedra, vaso de grés com um galho de carvalho em brotação, pedras, madeira e uma tigela negra reparada a ouro, dispostos sobre uma mesa de madeira.
Wabi 侘 e Ma 間
Esse entendimento da relação entre o indivíduo e o objeto, tão presente no pensamento de Axel Vervoordt, encontra raízes profundas nos fundamentos japoneses, especialmente nos conceitos de Wabi 侘 e Ma 間. Vale ressaltar que Vervoordt desempenhou um papel fundamental ao traduzir esses princípios para o morar ocidental, redefinindo o que consideramos luxo na arte e nos interiores. O Wabi (侘) está relacionado à beleza da imperfeição, da incompletude e das marcas que o tempo deixa — e continuará deixando — na matéria. O Ma (間) vai além do objeto físico: ele trata do vazio, daquilo que não podemos tocar, mas que, mesmo assim, faz-se presente no espaço. Enquanto o Wabi atua na memória tátil e visual das coisas, o Ma molda a espacialidade e a atmosfera invisível ao redor delas. O vazio jamais é encarado como falta, pois, se os objetos e texturas carregam uma presença densa e histórica, o intervalo entre eles é o que permite que essa carga seja absorvida por quem ali vive. Nas composições de Vervoordt, o vazio ganha uma densidade e se torna tão palpável quanto a própria matéria.
Uma das salas de paredes quase negras do Kanaal, sede de Axel Vervoordt em Wijnegem, nos arredores de Antuérpia. Na parede, um biombo japonês de seis painéis do século XVI, com um dragão entre nuvens pintado a tinta; no chão, uma Natura em bronze de Lucio Fontana, esfera aberta por uma fenda. Cada obra recebe um único foco de luz.
A sala wabi, no segundo andar do castelo de 's-Gravenwezel, residência de Axel Vervoordt perto de Antuérpia. Paredes ásperas cor de terra, vigas antigas, tábuas largas de madeira clara e a lareira acesa. Dois grandes jarros japoneses de grés do início do século XVI recebem galhos; na parede, uma caligrafia de 1961 de Yu-Ichi Inoue.
Uma das salas do TriBeCa Penthouse, no Greenwich Hotel, em Nova York, projetado por Axel Vervoordt com o arquiteto japonês Tatsuro Miki e inaugurado em 2014. Paredes e teto em reboco cru, pilares de madeira de demolição, um sofá longo em linho e uma mesa baixa feita de uma única prancha antiga; a televisão fica sobre um cavalete. Pedra e madeira de reúso foram escolhidas para ligar o apartamento ao bairro industrial do século XIX à sua volta.
A epifania de Axel Vervoordt
No mundo contemporâneo, em que a arquitetura, o design e até mesmo as artes distorcem o seu valor para nos entregar um status e nada mais, os interiores de Vervoordt fazem o oposto: eles nos despem e nos fazem entender que a epifania de existir de forma simples, crua e imperfeita já é o suficiente. Por meio da aceitação temporal do Wabi 侘 e da profundidade espacial do Ma 間, Vervoordt despoja o ambiente de qualquer artifício que sirva de distração e nos devolve ao peso da nossa própria existência. Uma experiência psicológica e espiritual ao entrar em um espaço criado por ele. Não há onde esconder a própria vulnerabilidade. E percebemos que, diante da imperfeição das coisas e da imensidão do espaço, o ato mais profundo que nos resta é o de, simplesmente, existir.
Espaços Henro e Ma-Ka, no Kanaal, sede de Axel Vervoordt em Wijnegem, perto de Antuérpia, desenhados com o arquiteto Tatsuro Miki a partir de proporções sagradas. Uma fotografia de Markus Brunetti de Santa María del Naranco, igreja asturiana do século IX, entre cabeças antigas em mármore e pedra, jarros sobre plintos, mesas de pranchas inteiras e cadeiras de madeira; contra o reboco claro, uma tela de gotejamentos coloridos com uma forma branca de árvore e um pequeno monocromo cor de terra.
Uma das salas do TriBeCa Penthouse, no Greenwich Hotel, em Nova York, de Axel Vervoordt e Tatsuro Miki (2014). A lareira tem moldura de pedra bruta e, dentro dela, uma grelha de ferro feita com suportes de viga retirados da estrutura original do Louvre. Pilares de madeira de demolição sobre bases de pedra, paredes em reboco cru, uma mesa baixa de tábuas antigas com um seixo sobre ela e um tronco no lugar da mesa lateral.